sábado, 17 de agosto de 2019
Do que trata a Psicanálise: do sintoma à responsabilidade

Muito se discute a respeito dos conceitos técnicos da teoria freudiana — a teoria do trauma, os processos de recalque, repressão, censura, as estruturas neurótica, psicótica e perversa; e assim por diante. São conceitos de fato fundamentais para a compreensão da Psicanálise, pois é da articulação deles que se torna possível entender como opera o inconsciente freudiano.
Entretanto, há algo de absolutamente fundamental à teoria psicanalítica que, embora surja a partir dessas formulações teóricas, vai muito além dela. Existe algo na Psicanálise que a faz apontar para uma concepção de homem. Fundamentalmente, trata-se da nossa condição de sujeitos: nossas identificações, nossos afetos, nossos sistemas pessoais de valores (o que podemos ou não fazer) e a nossa relação latente com a identidade, a alteridade e com a autoridade.
Basicamente, o que a Psicanálise quer ensinar é: tudo aquilo que uma pessoa faça, aja ou pense diz respeito a ela na sua condição de sujeito. Nós, enquanto sujeitos, nos posicionamos a todo instante — seja em relação ao Outro, a nós mesmos ou ao que consideramos ideal ou desejável. A Psicanálise irá olhar para este sujeito que existe e lhe perguntará: que pensas? que sentes? como sentes? que associações te vêm à mente? E, a partir disso, abre-se um espaço para que o sujeito, no meio do seu próprio discurso, fique evidente — mesmo (sobretudo) em seus pontos cegos. "Quando você diz/sente algo, quem é o sujeito que diz? Que sujeito é este? De onde ele vem? Que valores e identificações ele está espelhando? O que ele não se permite desejar? O que, no fundo, para além de toda a autocrítica, ele de fato deseja para si e para os outros?"
E que pontos cegos são esses? Pois é, é disso que se trata o sintoma. Simplificando bastante, é válido dizer que há um sintoma (no sentido psicanalítico do termo) sempre que agimos a despeito da nossa vontade — repetidamente, em padrões aparentemente paradoxais e incompreensíveis, e que se fazem presentes no seio da nossa relação com o Outro. São formas de se posicionar em relação ao Outro que continuamos a repetir, mesmo (sobretudo) sem querer ou perceber.
É disso que se trata o inconsciente: é um não-saber sobre si, ou, em outras palavras, um saber que diz respeito àquilo em nós que não reconhecemos como nosso; aquilo que não toleramos admitir como parte do nosso eu, mas que se faz continuamente presente em nossa vida. O objeto de estudo e de trabalho de um psicanalista é, assim, não o inconsciente em si, mas os posicionamentos subjetivos (profundos, automáticos e repetitivos) do sujeito — posicionamentos que, sim, constituem seu inconsciente.
O eu, que se julga soberano de si mesmo, descobre-se fragmentado, obrigado a lidar com o fato de que há muito sobre si que lhe escapa e que passa por processos ativos de encobrimento. "O eu não é mais senhor em sua própria casa." Está aí o terceiro golpe narcísico na humanidade, após Copérnico e Darwin.
E então, que se faz com isso? É aí que entra a responsabilidade — um tema que, se tudo correr bem, pretendo estudar mais profundamente na oportunidade de escrever uma monografia a respeito. Ou melhor, as responsabilidades. Há, em primeiro lugar, a responsabilidade de ser capaz de olhar para o seu próprio sintoma — encarar tudo aquilo em nós que nos escapa ao controle e compreensão — e se apropriar dele, dizer: isto é meu, eu o reconheço como meu; algo possibilitado pelo trabalho de elaboração. Em segundo lugar, a responsabilidade de decidir o que fazer com isto que está dado. "Ok, percebi que, em determinadas situações, sempre faço/penso/sinto isso. O que fazer?" É terrível, mas absolutamente libertador perceber que esta escolha é sua e somente sua. Perceber, compreender e aceitar que as respostas para a sua vida somente você pode se dar, e que buscá-las fora de si sempre trará o sentimento de incompletude ou insatisfação. Existe uma angústia inerente ao processo de tomar escolhas, como bem nos alertou Sartre, mas saber aceitar esta angústia e escolher mesmo assim é indispensável para a nossa emancipação frente a nossas neuroses.
Evidentemente, nada do que foi dito aqui esgota o que eu carinhosamente chamarei de espírito da Psicanálise — isto é, a concepção que ela sustenta com o auxílio e para além das suas tecnicalidades. Mas espero ter conseguido, em alguns poucos parágrafos, tornar um pouco mais acessível e compreensível a concepção psicanalítica de homem; algo que creio ser fundamental para que nos entendamos, individualmente e enquanto sociedade.
quarta-feira, 4 de abril de 2018
Sexo, poder e consentimento
Apesar de o tabu em torno do sexo ser hoje bem menor do que costumava ser anos atrás, não dá para dizer que a situação atual é ideal. Pouco se discute a respeito do assunto de maneira a não banalizá-lo ou mesmo usá-lo como matéria-prima para um humor não muito maduro. Ter aulas de educação sexual nas escolas estaduais é uma conquista muito importante de alguns estados, e que deve ser reconhecida, mas essas aulas são ambientes que não estão isentos dessa tendência (dos alunos, no caso) a banalizar e fazer comédia. E as conversas realmente sérias a respeito do sexo — como a clássica conversa na qual os pais têm um diálogo franco e desconfortável com os filhos —, por outro lado, acabam sendo envoltas numa aura excessivamente sóbria, como se tentasse contornar o tabu fingindo que ele não existisse.Precisamos falar sobre sexo. De forma lúcida, leve e consciente. A melhor forma de combater o tabu é tratar o tema da forma mais aberta possível, sem medo da diversidade e sem constrangimento. E, ao mesmo tempo, sem recair no erro de reduzir o sexo — e todo o erotismo que o envolve e que o constitui psicologicamente — ao mero ato carnal. Sexo é muito mais que isso. Em muitos sentidos, o ato carnal sexual é o que menos importa. Abordar as questões sexuais sem a complexidade, riqueza e fascínio que lhe são próprios seria ceder ao tabu e retirar do tema tudo o que o torna particularmente especial à espécie humana — e, mais, aos sujeitos que a compõem singularmente.
Venho hoje falar sobre uma das coisas que, particularmente, acho mais pertinentes e valiosas que permeiam o erotismo e que, mesmo em aulas de educação se sexual, sequer se menciona: as relações de poder. Embora eu tenha desde já um certo alinhamento psicanalítico, não faço parte do grupo de pessoas (restrito, porém existente) que prega que todas as relações sexuais sejam totalmente baseadas em poder. Seria muita prepotência e ingenuidade fazer uma afirmação desse porte. Mas acho seguro e plausível afirmar que pelo menos a maior parte das relações sexuais (e das dinâmicas psíquicas que as tornam tão prazerosas e viscerais) são perpassadas por questões que envolvam poder, como dominação e submissão. De formas muito distintas, sim, mas sempre com algum cunho de entrega e vulnerabilidade. E embora hoje em dia sejam mais comuns e menos preconceituosas as discussões a respeito das práticas BDSM (que foram inclusive romantizadas por filmes de grande bilheteria, como 50 Tons de Cinza), acaba-se passando a falsa impressão de que essas relações de poder estão circunscritas a certos nichos underground, quando elas na verdade parecem fazer parte (em maior ou menor grau, e de maneiras muito diversas) da própria dinâmica afetivo-sexual humana.
Constatar a amplitude e a pluralidade dessas dinâmicas de poder no erotismo acaba fazendo com que fique mais fácil nos desprendermos de certos moralismos que normalmente nos faria recriminar ou mesmo julgar certas práticas sexuais que são tidas como "desviantes". E o interessante é que, apesar de as discussões (dentro da academia e até mesmo da militância política) se embasarem em teóricos como Foucault, que desnudaram essas questões de maneiras muito profundas, estes ambientes muitas vezes acabam, sem perceber, recaindo em sua própria forma de moralismo (ideologicamente justificado) para condenar determinadas relações sexuais que envolvam poder, como se elas fossem algo em si prejudicial. Assim, em vez de dissolverem os moralismos que combatem, acabam se tornando moralistas inversos, por assim dizer. Por exemplo: em vez de dizerem às mulheres que elas podem fazer o que quiserem, acabam dizendo o que elas devem não fazer. Querem cercear a liberdade em nome da liberdade.
Eu até entendo o argumento. Essas relações de poder, expressas na vontade e no desejo sexual dos sujeitos, são construídos culturalmente, e devem ser colocados em questão. Concordo. O problema é: o que se entende por colocar em questão? Sob a minha ótica, é tentar trazer à consciência (tanto histórica quanto individual) essas estruturas sociais nas quais nos inserimos para assim tentarmos, na medida do possível, obter uma clareza maior quanto às nossas próprias escolhas e atrações. Isso é muito diferente de "problematizar por problematizar", de se ancorar num desconstrutivismo estéril, que condena tudo e desumaniza o homem naquilo que o torna um ser desejante. O desejo não se curva à moral (embora até tente, nos neuróticos). Não importa se a moral seja, agora, "progressista". Ele continua reprimido em algum canto, gerando em nós pensamentos e atitudes que não queremos reconhecer como nossos.
O que se confunde, essencialmente, é não saber exatamente como se delimita o consentimento. Costuma-se achar, muito equivocadamente, que ser submisso numa relação sexual de poder é estar num polo cuja vontade seja anulada. Muito pelo contrário, meus caros. É justamente o polo submisso da relação o detentor do consentimento-último, da decisão de se submeter ou não a determinadas práticas. No sexo — isto é, numa relação erótico-sexual entre duas ou mais pessoas que consentem —, as relações de poder não ofuscam nem anulam a necessidade de consentimento, mas, ao contrário, ampliam a importância de se produzir um ambiente saudável em que haja comunicação. Sexo sem consentimento não é sexo, é estupro. É uma violência extremamente grave, de cunho físico e sobretudo simbólico, que anula a voz do outro sobre seu próprio corpo. É algo inaceitável.
A questão final parece ser, então, não permitir que as pessoas confundam relações de poder dentro do sexo — que podem, em alguns casos, simular uma submissão da vontade como parte fundamental da própria dinâmica erótica consentida — com um dos crimes mais graves contra a integridade humana. E embora pareça simples fazer esta distinção, em muitos casos a linha pode ser tênue. A pessoa que ocupa o polo submisso, quando se encontra também envolvida emocionalmente nessa posição, pode encontrar muita dificuldade em impor limites e se fazer ouvida. É nisso que as discussões verdadeiramente progressistas devem focar: em conscientizar as pessoas para que criem formas de reforçar a comunicação entre parceiros sexuais, não em demonizar práticas que lhe pareçam ideologicamente controversas. A linha é tênue, mas não deveria ser. Como diria uma caloura minha muito querida, "consentimento não é a ausência de não, mas a presença enfática e consciente de sim".
quarta-feira, 14 de março de 2018
Ser o lado mais leve de si
Estive tão focado em meus projetos literários que já há algum tempo não escrevo textos especificamente para esse blog. Decidi, então, voltar a estabelecer essa linha de contato; voltar a fazer desse site pessoal um canal de comunicação e de exposição de ideias.
Amadureci muito no último ano. Muito mais do que eu poderia imaginar que fosse possível, e não estou exagerando quando digo isso. Sinto como se, com tanta autodescoberta, acabei adquirindo certas posturas diante da vida, das pessoas e de mim mesmo — posturas profundamente espontâneas — que hoje me fazem vivê-la de uma forma diferente. Uma certa tranquilidade se apossou de mim de maneira mansa e morna, e, pensando agora, não discordo que isso faça parte de uma maturidade que vem com os anos. Fui um adolescente muito aflito, muito ansioso, e estou só agora aprendendo a relaxar — mesmo em situações estressantes.A questão é só que estresse não leva a lugar nenhum. Estresse gera mais estresse, aprofunda o desespero, facilita decisões precipitadas e nos eletrocuta com a nossa própria insegurança. O brasileiro tem essa cultura de valorizar a pessoa preocupada, atribuindo a ela uma certa aura de responsabilidade. Um grande equívoco, se me perguntarem. Responsável é aquele que é capaz de "colocar a cabeça para fora da névoa" (como diria minha querida amiga I.) por um momento e ser capaz de se guiar — de maneira serena, cautelosa e confiante — para fora dos próprios problemas. É ser capaz de ouvir o próprio sintoma em vez de sucumbir a ele. E ter clareza e coragem para entender que está tudo bem, aconteça o que acontecer. Trata-se de saber respeitar os seus próprios limites e as suas próprias dores, sem se deixar imobilizar por eles. Em partes, é sobre ter fé em si mesmo (acreditando nas próprias potencialidades) e em tudo de bom que o futuro reserva, caso o semeemos no agora.
É claro que eu estaria sendo prepotente e até mesmo insensível se dissesse que essa é uma tarefa fácil. Não é o caso. Não é fácil, meus amigos. Há problemas que nos circundam e que nos esmagam na nossa própria impossibilidade. Mas é certamente possível, e, em certa medida, necessário. Levar a vida da forma mais leve que esteja ao nosso alcance é a única garantia que temos de obter certa paz. Uma paz que se projeta no futuro nunca é paz; é uma esperança ingênua que não se realizará jamais se não nos reeducarmos emocionalmente para encontrar essa serenidade no presente. Problemas, maiores ou menores, sempre existiram e não será agora que deixarão de existir. O que precisa mudar é você mesmo e a sua forma de encarar o mundo.
quarta-feira, 7 de março de 2018
O amor é uma ilusão?
Antes de mais nada, é preciso conceituar o amor — o que, por óbvio, não é nada fácil. Não só porque existem muitas formas de amar, mas sobretudo porque a experiência de cada sujeito com o amor é única, irredutível e incomunicável. Como, portanto, podemos falar de algo que é diferente para cada pessoa? Como falar do que permeia as diferenças, do que resiste à tentativa de transmissão, do que sobra no vácuo das palavras? Complicado, para dizer o mínimo. Impraticável, se estamos sendo totalmente sinceros.
É por isso que, ao vir aqui me dispor a falar de amor, tenho de inevitavelmente me restringir a falar do que eu acho que seja o amor — nos moldes do que eu vivi e observei. É, portanto, uma visão que não pode se dissociar do seu próprio aspecto pessoal.
Há duas posições diametralmente opostas que podem me dar uma base para explicar o que acho que seja o amor. A primeira delas diz que o amor é encontrar um outro alguém que nos faça sentir menos incompletos, mais preenchidos na lacuna do nosso ser. A segunda visão, fundada num ceticismo que, com orgulho, se considera "duramente realista", e que portanto rejeita a primeira, diz que o amor é apenas uma ilusão.
Pois bem: concordo com ambas. É importante perceber que elas não se anulam, como a nossa intuição parece querer sugerir. Para mim, o amor realmente está associado â sensação de que a nossa falta está sendo em alguma medida suprida, ainda que parcial e provisoriamente. Todo aquele lance psicanalítico de "desejo de se tornar uno com o outro", de reencontrar a unidade perdida, de tornar a ser o objeto de desejo do outro. E, sim, isso evidentemente é uma ilusão: embora se possa sentir essa falta sendo suprida, ela nunca de fato chega a sê-lo, pois um certo nível incontornável de solidão parece fazer parte da condição humana.
Em última instância, estamos sozinhos nas nossas questões, no núcleo do nosso ser. Claro: quanto maior e mais verdadeira a conexão com o outro, menos sozinhos nos sentimos, e isso é lindo e importante; mas existe sempre aquele resquício de um eu que é só seu, que não pode ser visto, sentido ou tocado, muitas vezes nem por si mesmo. É nesse abismo entre o eu e o outro que se abre a nossa própria incompletude, e não por coincidência a nossa própria indeterminação de não se saber exatamente quem se é.
Porém, eis a questão que muitas pessoas negligenciam: dizer que o amor é uma ilusão não significa necessariamente dizer que ele é uma mentira, mas que ele é da natureza de uma esperança. Amar é ter fé numa promessa de completude; é ter tanta confiança um no outro a ponto de ambos transcenderem o próprio abismo e se comunicarem cada um dentro da sua própria incompletude. E nisso os românticos não poderiam estar mais corretos: esta é uma das coisas mais valiosas que porventura temos a sorte de encontrar na existência.
Em outras palavras, o que estou dizendo é apenas que a completude que o amor promete não é real, e nunca será — por mais que possa se aproximar de ser —, mas que, nem por isso, o sentimento de amar deixe de ser real e sublime. Quem reduz o amor a processos bioquímicos realmente não entendeu nada sobre o que é o amor, sobre a sua natureza de ilusão que preenche, que faz a vida voltar a ter sabor. Muitas vezes, o amor é a única coisa na qual realmente conseguimos nos agarrar nesse lapso curto e confuso de existência.
O que de fato importa é que seja verdadeiro — tanto para quem ama, quanto para quem é amado. Sendo genuíno o sentimento, não há o que se dizer ou duvidar: se você já amou alguém, não precisa pensar duas vezes para saber. E isso jamais deve ser diminuído por reflexão filosófica alguma. O exercício de raciocínio que devemos fazer para investigar de onde e por que o amor vem (partindo das nossas próprias questões pessoais e inconscientes) não deve ser jamais um exercício de desilusão, mas de compreensão. Pois se não entendemos o que nos faz amar, passamos então a ser escravos de tudo aquilo que o amor gera em nós e que nos faz mal. Sentimentos com os quais nos identificamos porque doem, mas que na realidade sequer entendemos por que estão ali. E, claro, sem entender as nossas próprias lacunas, não saberemos trabalhar as incompatibilidades. Pois uma vez que cada pessoa ama de forma especial e singular, nem sempre o sentimento de dois amantes é compatível, ainda que seja verdadeiro. (Na maior parte dos casos, aliás, me parece que a compatibilidade é meramente superficial e provisória.)
É este o propósito que dou à autorreflexão no que diz respeito ao amor: atingir clareza interna e, por consequência, uma certa paz emocional, um "estar em harmonia com os próprios sentimentos". Jamais um desencantamento afetivo, um ceticismo infértil que nos despe daquilo que mais nos faz humanos e vulneráveis.
Amar também faz parte da condição humana, incompleta. Sem a incompletude, não haveria amor, não haveria promessa de completude: o amor é o que nos move, o que nos faz acreditar na conexão emocional. O amor é o instrumento pelo qual acreditamos uns nos outros — e em nós mesmos. É o que nos dá a coragem de nos tornar aquilo que ainda não somos, de acreditar no potencial que nós e aqueles que amamos temos de ser bons e verdadeiros. Passamos a nos sentir preciosos em nossa vulnerabilidade. O amor constrói. Se não constrói, então me desculpem, mas não é amor. É outra coisa.
Este texto pertence ao livro Os vários eus que me habitam, um ensaio filosófico que se encontra em construção há mais de um ano.
sábado, 24 de fevereiro de 2018
Calma Tormenta

Calma Tormenta é um diário de confidências, um convite à minha intimidade psíquica. É uma estátua feita com as pedras que pavimentaram o meu amadurecimento; é o registro íntimo de como cresci e floresci enquanto pessoa no último ano. Foi junto a este livro — e sobretudo através dele — que pude reunir os cacos que os anos fizeram de mim, para me tornar, assim, um pouco mais quem eu sou. Calma Tormenta é sobre redescoberta. É, antes de mais nada, uma exploração das possibilidades da palavra.
}}A escrita se impõe sobre mim como uma necessidade. É o meu momento de maior liberdade para me ser; para me desdobrar nas minhas potencialidades e exercer a voz que me constitui como sujeito. A escrita é a minha maior ferramenta de autodescoberta e de contato genuíno com o mundo. Ela é a minha ponte para a conexão verdadeira com as outras pessoas, e também o lugar onde aprendi a cavar minha própria solidão.
▶ Comprar um exemplar impresso (R$ 36)*
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*Meu lucro é nulo. Este é o valor que o Clube de Autores cobra para confeccionar o livro.
Textos de Calma Tormenta publicados no blog:
▶ Palácio
▶ Sozinhos, coletivamente
▶ Desconhece a ti mesmo
▶ Lembrete
▶ Rejeição
▶ Contínuo adulto
▶ Meu tom de certeza
▶ Amizades
▶ Palácio
▶ Sozinhos, coletivamente
▶ Desconhece a ti mesmo
▶ Lembrete
▶ Rejeição
▶ Contínuo adulto
▶ Meu tom de certeza
▶ Amizades
sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018
Amizades
Estou percebendo — da forma mais desgastante possível — que ter uma boa convivência social é encontrar a medida certa. E há poucas coisas mais difíceis na vida do que encontrar a medida certa, seja para o que for. No caso das relações com o outro, trata-se de um equilíbrio que oscila entre os extremos da solidão total e da saturação social. Ou seja, a questão é encontrar uma forma de não se isolar emocionalmente da presença do outro (pois em alguma medida isso te isola da própria realidade), mas também de não se deixar consumir pela energia das pessoas.Eu me encontro em ambos esses extremos com alguma frequência, e apesar de o extremo da solidão ser bastante devastador — pois me esvazia de propósito, sentido e motivação —, basta que eu passe (como passei ontem e hoje) pelo extremo da saturação social para que eu perceba que a solidão é um alívio. Não convém identificar as pessoas com quem passei tempo e que me desgastaram; apenas que são duas pessoas que admiro intelectualmente, de quem aprendi muito durante minha vida e até hoje posso aprender (embora de forma muito limitada). E é bastante interessante passar um tempo com elas, mas somente se este tempo for curto: o que a experiência me ensinou é que, por um tempo prolongado, ouvi-las falar, falar, falar e falar é uma das coisas que mais me exaure na existência. Não é um desgaste físico, propriamente, mas o desgaste mental e emocional é tamanho que acabo sentindo-o em meu corpo também.
Não acho por nenhum momento que eu não tenha responsabilidade alguma em sentir isso. Eu sou alguém que me entrego demais à energia das pessoas; a um ponto que, quando estou conversando com gente de personalidade muito forte, é quase como se eu não tivesse minha própria energia. É como se, ao entrar em contato com a chama interna de alguém, a minha chama se mesclasse à da pessoa em questão e perdesse sua própria intensidade independente. Minha chama consegue ser plenamente o que é apenas quando estou sozinho, sobretudo quando estou escrevendo: aí, em vez de mesclar-se à do outro, ela volta a ter seu próprio tom incolor e estável. (É importante lembrar que uso os termos “energia” e “chama” em sentido metafórico, não ontológico.) Acho que isso me ajuda a entender por que muitas vezes não consigo escrever: porque minha chama está muito contaminada com as cores do outro, e aí eu não consigo me ser. E a escrita, como tenho a impressão de já ter dito em pelo menos cinco outros textos, é o próprio ato de se ser — ao menos quando plena.
Existem outras pessoas, porém, como minha amiga I., cuja energia é tão amena e tão calma, da cor de um profundo azul-safira, que em vez de me saturar, acaba intensificando as cores da minha própria chama: não por coincidência, mas por me dar espaço — e muitas vezes encorajamento — para que eu me seja. Isso é o oposto de todas as outras relações com as quais estou acostumado: durante minha vida toda, me relacionar com pessoas foi uma questão de me adequar ao que a chama delas me impõe. É por isso que a presença de I. me é tão curativa: pois ela me causa algo oposto ao sentimento tão habitual de estar sufocado. E isso vai tão na contramão das minhas relações que, às vezes, quando I. me faz uma pergunta sobre mim, eu não sei o que responder. Minha chama às vezes se revela incolor demais — talvez justamente porque eu esteja viciado em aderir à cor dos outros.
Estou incomodado porque eu gostaria que a linguagem deste texto tivesse saído leve e poética, mas acabou saindo, pelo menos aos meus olhos excessivamente autocríticos, muito pesado e rebuscado. Então vou tentar ser mais direto e menos explicativo: passe a observar a sua própria energia quando está em contato com as pessoas. Com isso, o meu conselho é que faça o possível para cultivar as amizades que te façam se sentir bem, conectado consigo mesmo, que despertem uma versão boa, leve e confiante de si; e, da mesma forma, procure dar um basta nas amizades que te jogam lá pra baixo, que te saturam, que te façam se sentir culpado por ser quem é. O maior indicativo disso é o medo: se você tem medo de dizer algo e soar ridículo, ou bruto, ou irritante, ou o quer que seja — então esta provavelmente não é uma amizade que te acrescenta.
Não se trata de instrumentalizar as amizades, e sim de filtrar as relações saudáveis das relações tóxicas. A gente tem, sim, que aprender a lidar com relações nocivas sem fugir delas, enfrentando-as e aprendendo com elas, mas jamais continuar cultivando-as por mera obrigação ou tradição. É só uma questão de se aproximar das pessoas que te fazem se sentir confortável para se ser livremente, sem constrangimentos, até que um dia você possa sentir o mesmo inclusive diante de pessoas que antes te intimidariam.
As pessoas precisam, sim, ser filtradas. Não tenho dúvida disso. Desconfie de qualquer um que venha com um discurso universalmente bondoso de que você não deve fazer restrições às amizades. Poxa, você está se abrindo a uma pessoa; pode ser muito danoso deixar qualquer um entrar sem qualquer critério. E quanto a “tomar as pessoas sempre como fim em si mesmo”, mando Kant à merda. Amizades são importantes demais para serem indiscriminadas.
Eu estou absolutamente exausto de dar o meu melhor a pessoas que se veem no direito de presumir que eu tenho a obrigação de considerar seus interesses relevantes, quando, ao mesmo tempo, não têm o menor pudor em demonstrar que os meus interesses lhe são totalmente irrelevantes. Estou farto — e, sinceramente, emputecido — em ter demorado tanto tempo para perceber que aquilo que eu disse, de me censurar por medo de ser julgado, é algo que me mata de dentro para fora, e que eu não posso mais permitir. Eu sei que o “culpado” sou eu por ter permitido que as pessoas tivessem esse poder sobre mim, mas não pude de fato visualizar isto até que encontrasse amigos verdadeiros que me fizessem sentir totalmente confortável por ser quem eu sou. Não se trata de não receber críticas, mas de não ser diminuído por elas. Acho realmente que as amizades têm esse poder, de nos dar — ou tirar — a confiança de sermos quem somos, e de enfrentar o mundo com o queixo em pé.
(Aliás, obrigado, L., por ser uma das pessoas que mais me iluminou nesse sentido. O seu medo de parecer ridícula diante das pessoas, e a liberdade que eu e você nos damos mutuamente de sermos quem somos, me fez perceber que não devemos abaixar a cabeça a ninguém — muito menos a quem não consegue nos ver de verdade. Você é incrível. Somos incríveis. Vamos lutar todos os dias para que o desinteresse, deboche e julgamento das pessoas não nos impeçam de ver e viver o nosso próprio brilho.)
Este texto pertence ao livro Calma Tormenta.
sexta-feira, 19 de janeiro de 2018
Talvez você seja narcisista e não saiba disso
Faz tempo que estou querendo escrever este texto. É muito interessante — e também um pouco frustrante — o fenômeno de formação do senso-comum. Funciona assim: as pessoas observam superficialmente aquilo que elas não entendem, e tomam isso como a totalidade da coisa observada. E uma vez que isso se incorpora à ideia geral que as pessoas têm desta coisa, a tendência é que a visão superficial seja reforçada cada vez mais e mais, até que não se consiga ver nada além da superficialidade. Foi isso que aconteceu com a ideia popular de narcisismo. Explico.Quando você pensa em narcisismo, muito provavelmente o que te vêm à mente é uma pessoa que se ame demais. Uma pessoa vaidosa em excesso. Você lembra até do Mito de Narciso, que se apaixonou pelo próprio reflexo no lago. Porém, a impressão de se cultuar é um sintoma do que o narcisismo realmente é. Na realidade, o narcisismo em si é precisamente a falta de autoconfiança. Gravem as próximas palavras, pois elas capturam o núcleo do narcisismo: o narcisista não cultua a si mesmo, mas uma imagem que deseja ter de si próprio. Aliás, para ser ainda mais preciso, a uma imagem que ele precisa ter de si próprio — esta é a sua motivação primária e inconsciente. A questão central é que essa necessidade está associada, quase sempre, à validação externa. Ou seja, o narcisista é aquele que precisa que os outros confirmem uma imagem idealizada que ele precisa ter de si mesmo — e isso pode se demonstrar de inúmeras formas, sendo a vaidade apenas um dos possíveis sintomas. A causa é a insegurança em relação à própria imagem. Sua autoestima é profundamente flutuante e depende da validação social. Todas as suas atitudes têm, em última instância, a finalidade inconsciente de ter uma identidade reconhecida. Essa fragilidade na própria autoimagem faz com que o narcisista esteja sempre na iminência de se sentir agredido, desconsiderado ou deslocado.
Existem muitos tipos de narcisismos; classificações que, inclusive, variam muito a depender do sistema teórico adotado. Alguns tipos são mais óbvios (como os narcisistas exibicionistas) e outros mais difíceis de ser identificados (como os “narcisistas de armário”, ou narcisistas vulneráveis). Não vou me adentrar aqui nestas classificações, embora eu recomende imensamente que o leitor interessado procure se informar sobre. O que farei aqui é tentar explicar, em linhas gerais, como identificar um narcisista. É extremamente provável que você conviva com muitos deles — e que você mesmo seja um — sem nem ao menos saber.
A vida do narcisista gira em torno de duas coisas, predominantemente: atenção e validação (reconhecimento). Quanto à primeira delas, é muito fácil identificar um narcisista: ele é sempre a pessoa que monopoliza as conversas. Isso não significa necessariamente falar sempre sobre si; muitas vezes trata-se apenas de receber atenção. Sem querer e sem perceber, o narcisista sempre “toma o controle da conversa”; ele é simplesmente incapaz de participar de uma conversa de mão dupla, pois sua fome de atenção não lhe permite fornecê-la, apenas exigi-la. Ele precisa que as pessoas ouçam com interesse e entusiasmo o que diz, mas não consegue se interessar verdadeiramente por aquilo que ouve — a menos que lhe diga respeito.
A segunda necessidade é a validação. Ele precisa se sentir no direito de estar falando o que fala, sentindo o que sente, fazendo o que faz — e, para tanto, precisa que as pessoas lhe confirmem que está no direito. É por esse motivo que a noção de senso-comum está tão equivocada: pois o narcisismo é o cúmulo da insuficiência; é o mais rigoroso “precisar da opinião do outro”. As formas de se validar também são várias, mas a maioria delas é permeada por um discurso de “vejam como eu sou injustiçado”. O narcisista, sem perceber, é obcecado em se colocar como vítima das situações. Esse ponto é particularmente relevante, pois quando diz respeito às suas questões, o narcisista é profundamente dramático; porém, quando se trata das dores das demais pessoas, ele as desconsidera sem nem pestanejar. É por isso que muitos psicólogos chegam a teorizar o narcisismo afirmam que seu autocentramento excessivo resulta em incapacidade (relativa ou absoluta) de ter empatia verdadeira.
Na prática, acaba sendo difícil identificar o narcisismo — não só nas pessoas que nos rodeiam, mas sobretudo em nós mesmos — porque ele pode ser bastante sutil. Uma pessoa viciada em contar “causos”, por exemplo, não seria normalmente vista como narcisista, mas é altamente provável que seja: isso não apenas a permite monopolizar a conversa, como também a coloca quase sempre como protagonista das histórias. O narcisista quer sempre ser o protagonista — mesmo quando está se humilhando em vez de se exaltar. E existem milhares de outras formas de um narcisista se validar: pode ser, por exemplo, por associação a ideais ou figuras idealizadas; assim, constroem sua imagem à luz da imagem de ideias ou pessoas já reconhecidas. Outra forma de se validar é através do humor — especialmente do humor que toma como alvo a imagem das outras pessoas.
É de extrema importância pontuar que não estou falando do Transtorno de Personalidade Narcisista, o diagnóstico psiquiátrico. Quando falo "o narcisista", estou apenas utilizando uma forma simplificada de me referir a uma pessoa cujos sintomas (no sentido psicanalítico) girem em torno de questões narcísicas. Não estou, como pode parecer, criando uma categoria psicopatológica taxativa. Falo em "o narcisista" para me referir conceitualmente a um tipo de padrão metapsicológico — isto é, a um padrão que não diz respeito ao conteúdo das questões psicológicas, mas sim ao seu funcionamento, que nesses casos é altamente narcísico. É claro que qualquer pessoa pode eventualmente apresentar alguns traços pequenos de narcisismo; isso não faz dela narcisista. Quando falo em narcisistas, estou me referindo às pessoas que — em maior ou menor grau — subordinam inconscientemente todas as suas interações sociais (e inclusive metas pessoais e profissionais) a seu narcisismo.
A essa altura, é muito importante alertar para a comum tendência de demonizar o narcisismo como algo intrinsecamente ruim e, mais, moralmente reprovável. Isso não faz sentido pois, em primeiro lugar, o narcisismo é fruto de uma história pessoal conturbada, cheia de angústias — normalmente num contexto familiar rodeado de outros narcisistas — que a pessoa sequer escolhe, e cujo impacto a pessoa sequer se dá conta. (Alguns pesquisadores chegam a sugerir até influências genéticas.) Reprovar o narcisismo moralmente acaba sendo muito contraprodutivo, pois faz do assunto um tabu na medida em que impõe ao narcisista um certo vexame diante de seu próprio sintoma.
O narcisismo deve ser denunciado e combatido apenas na medida em que se torna tóxico. Isso acontece quando a magnitude do narcisismo se torna socialmente problemática, ou seja, inviabiliza as relações sociais e impede a pessoa de estabelecer vínculos verdadeiros — o que, devo dizer, não é nada incomum. Pelo que pesquisei e observei, uma pessoa que tenha altas doses de questões narcísicas quase sempre sofre e gera problemas dos mais diversos tipos, todos eles girando em torno de seus próprios apegos narcísicos. O que quero dizer com apegos narcísicos? Bem, para início de conversa, o narcisista quer sempre estar certo. A culpa é sempre das outras pessoas. Fica muito abalado com discussões, como se sua vida dependesse disso. O narcisista reage muito mal a críticas, pois as toma como ameaças. Outro apego narcísico muito nítido é a necessidade de estar no controle, sempre "saindo por cima" das situações de alguma forma.
Se é possível mudar? Não tenho uma resposta. Porém, sendo eu mesmo um narcisista vulnerável (em grau médio, eu diria), posso dizer que, embora talvez não seja possível se desfazer totalmente das motivações narcisistas (pois em última instância são elas que nos movem), é plenamente possível melhorar. Como? Obtendo consciência delas, procurando prestar real atenção nas pessoas e procurando formas de canalizar o narcisismo para coisas boas. É claro que isso não é tão simples: é o próprio narcisista que deve se atentar para suas características potencialmente tóxicas, e procurar mudá-las. Se uma pessoa “de fora” tentar apontar seu narcisismo, seus mecanismos de defesa entrarão em ação; afinal, a exposição é um dos maiores medos do narcisista. Por isso, é preciso tomar cuidado: apontar o narcisismo em alguém narcisista pode fazer essa pessoa se voltar contra você. E não podemos nos esquecer: ao apontar, olhe para si mesmo, pois não há nada mais narcisista que apontar (de maneira rancorosa ou zombeteira) o narcisismo de outra pessoa. Ele só pode ser trabalhado se houver uma boa dose de humildade e autopercepção.
*Credito a maior parte do meu conhecimento à Elinor Greenberg, psicóloga americana e autora de "Borderline, Narcissistic, and Schizoid Adaptations: The Pursuit of Love, Admiration, and Safety". Ela é uma famosa expert em canais de informação como o Psychology Today e o Quora.
domingo, 29 de outubro de 2017
Meu tom de certeza
Tenho um apego por estar certo. Se estou sendo sincero, devo dizer que isto é algo extremamente evidente que, no entanto, só fui capaz de enxergar após muita autoanálise e muita humildade, como remédios amargos que insisti em tomar por saber que fazem bem. Mas não é algo do tipo “o importante é vencer a discussão”, pois, lembremos, eu me pauto pelo outro, o que significa que para mim é absolutamente impraticável um cenário no qual eu me imponha sobre o meu interlocutor de forma a ser visto como um vilão. É muito mais algo no sentido de “mostrar de maneira didática e simpática ao outro os motivos pelos quais eu acho que tenho razão”.O problema é que esses motivos são sempre muito bem fundamentados e articulados — ainda que estejam equivocados ou enviesados, algo inteiramente possível. Tanto é que, quando apresentam algum argumento ou lógica mais contundentes que as minhas, eu não hesito nem por um segundo em ceder, com um ar resignado ou curioso (mas sempre de bom grado), admitindo que a outra pessoa tem razão.
Ultimamente tenho estado um tanto machucado por ouvir de amigos íntimos, na palavra dos quais eu coloco completa integridade, que eu sou intelectualmente autoritário. Porque eu cedo.
Eu cedo. Seria profundamente injusto dizer, só por causa do tom seguro e enfático das minhas palavras, que eu não cedo. Se tem uma coisa que eu faço, é ceder — não só quando reconheço que estou errado, o que é muito frequente, mas mesmo em situações em que continuo convencido das minhas razões, mas conformado diante do fato de que a outra pessoa não está disposta a entendê-las antes de contra-argumentá-las.
Mas eu entendo que esse tom possa inspirar uma arrogância, passando a impressão de que eu parto do pressuposto de que eu estou antecipadamente certo — uma postura que me incomoda e me ofende profundamente quando me deparo com ela em alguma pessoa. Já cheguei a concluir precipitadamente que esta é uma projeção minha, que eu só abomino esse tipo de pessoa porque na realidade é algo que eu tenho em mim e não aceito. E, para dizer bem a verdade, quando penso nesta hipótese projetiva, eu a sinto doer lá no fundo, o que me faz acreditar emocionalmente que ela é verdadeira. Mas, parando para pensar racionalmente, uma grande parte da minha concordância de que eu sou assim é, sem querer, uma forma de eu ceder às pessoas que me dizem isso, validando a sua visão sobre mim e internalizando-a em forma de culpa.
Não sei se o leitor conseguiu captar o traquejo que estou tentando mostrar que acontece: ao admitir essa culpa para mim, me culpando por algo que racionalmente eu sei que não faz tanto sentido assim, estou fazendo justamente aquilo que me acusam de não ser capaz de fazer: reconhecer a verdade do outro. O que é isso, minha gente? Reconhecer a verdade do outro é tudo o que eu sempre fiz na vida. É a raiz de toda a minha ansiedade social, de todo o meu sentimento de insuficiência. É um desaforo que verdadeiramente me dói ouvir do outro,que eu sou "intransigente": pois se eu de fato o fosse, isso sequer me doeria.
O que me vem à cabeça agora é que talvez eu seja, de fato, essa pessoa que me acusam ser, e que na realidade eu só estou me enganando com racionalizações. Esse autoquestionamento permanente, que resiste mesmo apesar de eu ter me convencido racionalmente de que eu não sou essa pessoa que me pintam ser, existe no mais profundo de mim: eu considero tanto a palavra do outro que eu não consigo me descontaminar dela, mesmo após eu tê-la batalhado dentro de mim. O outro sempre causou um estrago em mim; e é por isso que consigo entender que me machuque tanto essa crítica, pois é o outro dizendo que o meu defeito é não ouvi-lo.
É, aliás, talvez justamente porque atribuo à palavra do outro uma autoridade tão grande que eu tenho esta necessidade de me demonstrar certo — o que é totalmente diferente de ter a necessidade de estar certo, previamente, porque eu não tenho problema nenhum em estar errado, contanto que me convençam articuladamente. O que me ofende nessas pessoas que querem sempre estar certas não é que eu me veja nelas, mas, ao contrário, é me ver diante de um outro que quer impor suas verdades sobre mim mas não está minimamente disposto a ter, como eu tenho, uma permeabilidade às ideias do interlocutor. E me desculpem, amigos, mas se vocês me conhecem minimamente, sabem que eu sou a permeabilidade em pessoa. Eu sou inteiro permeável à subjetividade alheia, e, novamente, esse tem sido o meu maior problema há muito tempo.
Então, não: eu não aceito que me taxem como autoritário apenas porque meu tom de voz pode soar seguro demais. Porque muito mais autoritários são vocês, com tons passivos e inseguros, e que não se permitem convencer nem mesmo por argumentos muito bem explicados que contrariem as suas crenças confortáveis.
Não vou dizer que não tenho vieses, que minhas opiniões são sempre desapaixonadas a ponto de não haver resistência alguma a ideias novas, mas eu certamente não sou esse monstro que as suas próprias inseguranças fizeram de mim. Se bem que não os culpo. Também eu sou inseguro e projeto meus próprios demônios nas pessoas. Crio monstros onde não há e os combato a ferro e fogo, odiando aquilo que me machuca. É triste e patético, e quem mais se machuca ao fazer isso somos nós mesmos. Os meus monstros hoje são dois, sobretudo. O nome dela é L., e o dele, R.
L. é uma menina linda. Num certo sentido, não há meio termo: sua presença causa atração ou repulsão nas pessoas que a cercam. De si exala uma aura de adulta, não só com seus traços maduros mas também com sua expressão, que é toda cheia de um ar de exausta, sem paciência para as pessoas e muito menos para si mesma. Acho que isso dá grande parte do charme (pois o que ela mais tem é charme): essa constante postura de quem está tão cansada da vida que já parou de fazer questão. O ponto é que, olhando-a mais atentamente, num nível um pouco mais profundo do que as pessoas costumam procurar, é muito nítido que essa pose toda é provavelmente uma roupa que ela aprendeu a vestir para não se deixar fragilizar. Essa é a sua forma de não se vulnerabilizar.
Mas chega uma hora que cansa — e eu diria que cansa imediatamente, assim que se percebe qual é a dela. Quando se percebe que essa indiferença toda, esse sarcasmo pretensamente humilde e esse ar desdenhoso em relação às coisas da vida, às pessoas e a si mesma — quando se percebe que tudo isso não passa de uma fachada, uma defesa que ela está viciada em usar, e sem a qual não consegue se relacionar, a pessoa se cansa. E aí aquela elegância toda, aquele brilho que ainda seduz muitas pessoas, se transforma de repente em algo triste. Uma pessoa que não consegue se demonstrar vulnerável em público, e que, em vez disso, veste uma máscara de quem incondicionalmente sabe o que fala — mesmo quando, na maior parte dos momentos, esteja falando coisas das quais não tem a menor propriedade. Sua situação passa de triste, então, para um tanto nociva.
Acho que, sob um certo ângulo, a forma de L. lidar com as discordâncias é quase oposta à minha. Como conversar com alguém que possui o tempo todo um tom de voz desapegado e cético (no sentido da desesperança, do pessimismo como pressuposto), e que, no entanto, jamais cede? Pois justamente por sentir que não domina o assunto, veste uma carcaça de quem domina, e se deixa embrenhar nessa apresentação confusa de segurança e insegurança excessivas na voz.
Quanto ao R., minha repulsa é ainda maior. Pois a sua gana por estar certo não é triste, mas irritante — no máximo que alguém consegue ser. A questão é que ele, ao contrário de L., domina até excessivamente o que está falando, e tem argumentos bastante lógicos e articulados. O que me irrita e me ofende profundamente é que a sua vontade de se demonstrar correto é tão sedenta e tão voraz que ela me atropela. R. também não cede, mas porque usa da solidez de seus argumentos para não precisar escutar o que o outro tem a dizer. Se escuta, parece ser sempre com o objetivo primordial de desmontar o argumento do outro de uma maneira complexa e intelectual, ou, no mínimo, compatibilizá-lo ao seu.
Eu, que só o conhecia virtualmente, era um grande fã. Até que tentei conversar com ele pessoalmente, ouvindo suas opiniões complexas e dialogando com elas — foi então que percebi que seus olhos divagavam e sua mente fugia do ambiente quando era o momento de tentar assimilar os meus argumentos. E naquele momento eu me senti profundamente invisível, como se o único papel possível que eu poderia ter para ele era o de ceder à erudição e exatidão de seus argumentos, sem intervir com a minha própria subjetividade.
E o interessante é que, pelo que conversei com outras pessoas que o conhecem, embora ele tenha uma reputação um tanto manchada por ser uma pessoa que problematiza demais as coisas, e com uma dedicação combativa intensa demais, chegando a parecer talvez até um pouco rancorosa, poucos são aqueles que se incomodam e que sequer notam esta sua tendência a não ouvir. E eu consigo entender o porquê. A forma didática como se comunica passa a impressão — não por coincidência — de que ele está ouvindo seu interlocutor, quando na realidade tudo o que faz é utilizar o discurso que chega até ele como uma ponte para a construção do seu próprio. Ele não está minimamente disposto a ceder.
O único lado bom deste incômodo que R. me causa tão ferozmente é ter me feito descobrir que me é extremamente doloroso ser contrariado por pessoas que não estão abertas ao que eu tenho a dizer. Eu me sinto invalidado. Mais do que isso, até: anulado. Porque, repetindo pela trigésima vez, eu infelizmente aprendi a me ver por meio dos olhos do outro. E isso é algo que eu tenho trabalhado muito em análise.
Ainda preciso descobrir até que ponto esta minha aversão a essas duas pessoas é fruto das minhas inseguranças e projeções, e até que ponto eles de fato têm posturas tão tóxicas quanto me parecem ter. O fato de eu estar usando apenas suas iniciais me alivia bastante, pois me deixa totalmente confortável para não me censurar em nome da privacidade psicológica alheia. O que me deixa entusiasmado é imaginar se o leitor que é amigo deles será capaz de identificá-los mesmo sem eu ter escrito seus nomes, o que significaria não apenas uma precisão descritiva minha, mas também uma certa acurácia em sua toxidade. Ou, melhor ainda, se eles próprios estiverem lendo isso, e diante da identificação com o descrito, serem obrigados a se deparar com o fato de que "a carapuça serviu".
Este texto pertence ao livro Calma Tormenta.
quarta-feira, 25 de outubro de 2017
Contínuo adulto
Numa revista sobre Lacan, encontrei uma série de insights sobre a escrita:“Naturalmente, a literatura não é uma graça; é o corpo dos projetos e das decisões que levam um homem a se realizar (isto é, de certo modo, a esse essencializar) somente na palavra: é escritor aquele que quer ser.”
(Roland Barthes)
“Escrever é entregar-se ao fascínio da ausência de tempo. Neste ponto, estamos abordando, sem dúvida, a essência da solidão.”
(Maurice Blanchot)
“Ao comparar o ato de escrever à Psicanálise, estou implicitamente afirmando que para um indivíduo encontrar sua voz própria como escritor, em determinados aspectos, é como o caprichoso processo de se tornar adulto.”
(Alfred Alvarez)
Algo na riqueza dessas palavras me deu uma certa revigorada na paixão pela escrita. É que, para variar, nos últimos dias estive numa daquelas recaídas nas quais não me sinto minimamente forte para escrever. Antes eu era ingênuo a ponto de achar que essas recaídas logo sumiriam, mas estou começando a acreditar, agora, que viver é isso mesmo: lutar, entre recaídas, para aceitar e entender a si mesmo. Mas é muito difícil, porque o nosso primeiro instinto diante das recaídas é entrar nesse ciclo vicioso de culpa, frustração e fuga. Pelo menos é o que faço na maior parte do tempo.
Falo sobre a escrita, mas isso vale também para outras atividades básicas, como estudar. Não consigo estudar porque procrastino, e procrastino porque não consigo estudar. No fundo, o que gera essa minha fuga e é por ela gerada é o clássico sentimento de insuficiência, velho amigo de todos nós. E ele vem de diversas formas, entre elas a campeã: a preguiça. Tenho preguiça porque no fundo não me sinto capaz.
Mas quando me ponho a fazer tal ato, e percebo então que isso tudo é bobeira, estratégias involuntárias de autossabotagem, e me vejo efetivando aquilo que eu precisava realizar, me vem uma ansiedade, que não deixa de ser uma outra carapuça que a insuficiência veste. E na maior parte das vezes não vejo isso acontecendo; apenas acontece.
Hoje, enquanto caminhava na chuva com um guarda-chuva semiquebrado e pensava nas minhas questões, cheguei a uma frase que me surpreendeu, tamanha é a sua veracidade e beleza. Sinto que precisamos sempre nos reconquistar, pois as nossas neuroses e paranoias não cansam de nos furtar — da realidade, das pessoas que amamos e sobretudo de nós mesmos. Preciso me reconquistar, continuamente. Esse movimento não tem fim.
Ser verdadeiramente adulto — no sentido de olhar para a própria vida como se ela fosse inteiramente sua, o que significa, em última instância, não sentir a necessidade de prestar contas a ninguém — não é algo que se adquire uma vez “e pronto”, mas algo que precisamos sempre estar praticando. E escrever é isso: é vestir essa toga de juiz da própria verdade, de dono da própria palavra, e expressar sua própria sinceridade com a tranquilidade e firmeza de quem não deve nada a ninguém. Esqueçam as aulas de redação: não dá para escrever de verdade se ainda tiver na boca e no coração as mordaças do medo e da insegurança de si. É como eu sempre digo, e como sempre preciso reafirmar a mim mesmo: escrever é um ato de coragem.
Hoje me ensinei uma grande lição, que talvez a algumas pessoas pareça óbvia, mas que é muito difícil de assimilar por completo: a vida é um processo contínuo. Nunca estamos livres do dever de amadurecer. Entregar-se às próprias feridas não é o caminho. Somos grandes, se nos permitirmos sê-lo. É só ter a coragem de encarar a própria dor, aceitá-la e superá-la — um pouco por dia.
Há quem se incomode quando os meus textos terminam com um tom de autoajuda. Consigo entender essas pessoas: verbos em primeira pessoa, no plural, com conteúdo altamente motivacional, decerto parecem ser, a um primeiro momento, a fórmula gramatical da autoajuda. Mas se você tem uma dignidade estética tão frágil ao ponto de ofuscar o conteúdo que quero dizer, apenas pela forma, meu sincero foda-se. Esta é outra coisa que (re)descobri hoje: o que eu quero com a escrita é justamente nomear as coisas mais belas e verdadeiras do nosso cotidiano, que na maior parte das vezes passam despercebidas, e, com isso, causar nas pessoas o que estas coisas causam em mim. Se eu conseguir fazer isso, estarei mais do que realizado. Esta é uma das formas de me reconquistar diariamente.
Este texto pertence ao livro Calma Tormenta.
sábado, 9 de setembro de 2017
Rejeição
Por que rejeição dói tanto?Por que é que as rejeições do passado insistem em se projetar constante e inconscientemente no presente, sepultando muitos futuros possíveis em nome do medo? Por que é que ela se transveste de culpa, de ansiedade, de ódio, de preguiça, de desinteresse, e até mesmo de procrastinação de maneira tão convincente que nós mesmos dificilmente somos capazes de enxergar que, na verdade, estamos apavorados pela mera possibilidade de sermos rejeitados novamente?
Nos culpamos por coisas que nunca estiveram ao nosso controle.
Deixamos que a ansiedade nos faça perder a cabeça por problemas que não existem.
Canalizamos nosso ódio a um inimigo construído e descontamos nele todas as nossas cóleras que seriam, na verdade, contra os que amamos e contra nós mesmos.
Temos preguiça porque o desamparo prévio nos sequestra qualquer motivação.
Somos desinteressados como que por vingança, ou, ainda mais provavelmente, por receio de nos machucar novamente. Talvez nos fechemos tanto às pessoas justamente por pressupor, em algum lugar de nós, que elas também estarão fechadas a nós.
E procrastinamos tanto porque, como é de conhecimento geral, é mais fácil deixar para o amanhã as coisas que não queremos enfrentar hoje; um amanhã eterno que será sempre a fuga daqueles que não conseguem fugir de si mesmos.
Eu não sei. Parece um quadro pessimista. Mas peço que o leitor que tenha se identificado com esse texto, e que, justamente por isso, tomou-o quase como uma adaga gelada enfincada na espinha, não se desanime. Pelo contrário: só o fato de conseguirmos visualizar o que diabos está acontecendo dentro de nós já garante que estamos no caminho.
Acho que o próximo passo é parar de lutar contra e, em vez disso, tentar aceitar a nossa condição falha — e, portanto, humana — de quem tem feridas e está disposto a permitir gentilmente que elas se cicatrizem. Elas irão se cicatrizar porque esse é o rumo natural das coisas; não porque temos de fazê-las desparecer, e muito menos para satisfazer expectativas que colocamos a nós mesmos sob tanta pressão. Sem pressa, sem afobação. Se permita sofrer, e, então, se permita ser. Eu vou tentar fazer isso; aviso quando der certo.
Este texto pertence ao livro Calma Tormenta.
quarta-feira, 26 de julho de 2017
Signos: utilizar, sem acreditar

Costumo incomodar tanto quem crê em signos, quanto quem acha tudo uma grande baboseira esotérica. É que eu continuo com o meu ceticismo científico, sem no entanto aplicá-lo com rigor nas futilidades do cotidiano, nas brincadeiras sociais, especialmente se consigo extrair delas algum sentido, ainda que este seja não real, mas simbólico.
Qualquer um que tenha um mínimo de seriedade metodológica não acredita realmente que a posição dos astros, a depender do dia em que você foi parido, tem qualquer impacto significativo na sua personalidade. Epistemologicamente isto é indefensável. Em termos mais simples, pensando-se em como o homem obtém conhecimento concreto e objetivo sobre o universo, e tendo uma educação científica verdadeira, isto é, possuindo uma noção sólida de como (e por que) se faz ciência, não é minimamente plausível crer que posições de massas condensadas no espaço sideral possam influenciar aspectos psicológicos de um ser humano. Isso fica particularmente evidente, para não dizer óbvio, quando se compreende o mundo por lentes existencialistas.
É claro que você tem o direito de ter um paradigma místico e desconsiderar a ciência como único método de obtenção de conhecimento objetivo* sólido, mas isso significa admitir que você não entendeu o que faz de uma ciência, ciência. A ciência não tem o privilégio da credibilidade apenas por mera convenção; é claro que o tem por convenção, uma convenção assentada na lógica ocidental e positivista, mas há um motivo muito claro para esta confiabilidade. A ciência não é confiável porque "os cientistas disseram", mas por princípios estruturais de autorefutamento e de método rígido que agem a partir da ignorância, admitindo-a e trabalhando em cima dela, em rumo ao aperfeiçoamento contínuo. As pseudociências querem usufruir da mesma credibilidade, mas justificam a ignorância com a própria ignorância (fazendo uso da falácia do apelo à ignorância), e blindam suas premissas com fortes raciocínios circulares.
"Para julgar a astrologia, é preciso primeiro estar a par dos estudos astrológicos profundos e atualizados." Não, não é preciso. Não importa o quão complexa e elaborada a astrologia é internamente se (1) as premissas não se sustentam epistemologicamente, e se (2) seus resultados são comprovadamente uma ilusão causada por muitos de nossos vieses cognitivos, sobretudo o viés da confirmação. Como explica o canal Nerdologia num vídeo muito completo de cinco minutos, a astrologia (A) costuma ignorar importantes descobertas astronômicas (como a precessão dos equinócios, ou os novos planetas e constelações descobertos nos últimos séculos), o que demonstra o descaso com uma metodologia comprometida com a superação das antigas verdades; e (B) foi demonstrada totalmente falível nos testes duplo-cego, como no famoso experimento de Shawn Carlson, publicado na Nature: quando se retira a intervenção subjetiva, a efetividade estatística dos signos se reduz a chances aleatórias.
Bem, agora que a esquerda universitária pós-moderna está em total fúria, chegou a hora de desagradar as pessoas com um senso científico tão pretensioso e orgulhoso que quase se ofendem quando alguém fala em signos. Fiquem vocês irritadiços ou não, o fato é que os signos astrológicos, enquanto um sistema simbólico, servem para falar de coisas reais. Embora os signos em si não sejam reais, muitas vezes eles prestam um papel representativo a certos esteriótipos multifacetados com os quais nos identificamos (ou não), permitindo que conversemos sobre questões extremamente verdadeiras sobre nossa estrutura emocional, a qual seria difícil abordar de maneira tão fácil e lúdica.
Imagino que visualizar a simbologia envolvida em certos processos é bastante difícil para pessoas que ainda estão submersas no paradigma da consciência, segundo o qual as coisas ou são, ou não são, objetivamente, e fim de papo; no entanto, uma vez que obtêm alguma familiaridade com o paradigma da linguagem, que mostra que a relação entre o sujeito e o mundo é construída e mediada por significações,1 compreendendo que a realidade percebida é constituída subjetivamente pelas experiências do sujeito, passa-se a saber valorizar os aspectos simbólicos e imaginários que dão sentido à vida das pessoas, e que, em última instância, revelam e interagem com aspectos reais.
Vou criar um exemplo banal para ilustrar o que estou querendo dizer. João tem seu sol em Leão, seu ascendente em Capricórnio e sua lua em Sagitário. Quando vai ler a respeito, descobre que, segundo a astrologia, isso significa que ele é vaidoso em seu íntimo, e se possui uma autoestima tão baixa, é justamente por ser muito preocupado com a sua autoimagem. Contudo, tendo Capricórnio como ascendente, João age, externamente, como uma pessoa pé no chão e focada, por vezes sistemática demais na sua própria maneira de fazer as coisas, passando a impressão de que não se preocupa tanto com sua aparência quanto de fato se preocupa. A lua em Sagitário sugere ser muito comum que João se isole emocionalmente, afastando as pessoas que ama para ter momentos para si, mas, ao mesmo tempo, sendo extremamente dependente do apoio emocional — e social — destas pessoas. Em suma, João se fere internamente por estar sozinho, mas não tem autoestima o suficiente para abrir-se com seus amigos. (Vocês estão pensando o quê? Que eu não entendo de signos? Eu sou de humanas, não estou fazendo mais que a minha obrigação.)
É claro que essas são características genéricas com as quais muitas pessoas irão se identificar, mesmo as que tenham nascido em outros dias. João as identificou no meio das outras como as que mais lhe serviram, ignorando as que não lhe serviram sob a justificativa de que "tem que ver o resto do mapa astral". É justamente assim que funciona o viés da confirmação. Não estou negando isso. Mas é precisamente em virtude do fato de João ter se identificado com essas características que os signos têm alguma utilidade, pois se referem a aspectos reais que ele encontrou mais nítidos em si após vê-los representados pela astrologia. E se existe uma riqueza de profundidade psicológica nesta análise simbólica, não podemos descartá-la apenas em função de os signos não fazerem sentido científico.
"Mas, Régis, você não acha uma ignorância quase religiosa julgar alguém pelo dia em que ela nasceu?" De fato, é possível que eventualmente justifiquem muita estupidez infundada fazendo uso do zodíaco, bem como de toda espécie de esoterismo. Mas essa é uma postura que deve ser criticada e que eu não defendo. Quando digo que acredito nos signos apenas simbolicamente, sem levá-los a sério, é exatamente a isso que estou atentando. Os esteriótipos seletivamente evidenciados pelos signos devem ser utilizados como uma forma de brincadeira para apontar, de maneira divertida e descontraída, aspectos do real que podem encontrar mais visibilidade no simbólico; jamais como uma maneira de explicar o real em função do simbólico. Quando digo que "Fulano é encrenqueiro porque é de Áries", existe uma ironia transbordante em minha voz. O fato de essa afirmação ser tão obtusa que chega quase a soar ridícula é justamente o que confere a graça à brincadeira, em conjunto com o fato de, no caso em questão, Fulano ser, realmente, estourado — e por isso fazer sentido [simbólico] que ele seja de Áries, e não o contrário.
Em resumo: acho ingênuo e implausível alguém sensato acreditar verdadeiramente em signos, mas acho igualmente estúpido alguém odiá-los como se não houvesse neles aspectos úteis ao convívio social e à autoanálise. Minha utilização da astrologia é sempre simbólica e divertida; quem não entende isso, não será capaz de captar em minhas palavras até onde estou sendo irônico, e até onde estou sendo sério.
Mas é claro que talvez eu só tenha dito isso tudo por ser de câncer. Muito drama, eu sei. Agradeço aos deuses por ter ascendente em capricórnio — é o que me impede de me afundar em meus próprios sentimentos.
*A ênfase no "objetivo" é particularmente relevante pois retira da ciência o monopólio do conhecimento quando se refere a objetos [de estudo] subjetivos, como a Psicologia, que é, por essência, subjetiva — havendo, assim, uma flexibilidade um pouco maior quanto a outros métodos. Não partilho da visão, por exemplo, que a psicanálise, apenas por não ser uma ciência (em termos de hipótese, verificação, falseabilidade), passe a ser necessariamente uma forma de saber que não deva ser levada a sério. Mesmo porque, até onde me consta, o próprio objeto de estudo da psicanálise — o inconsciente — é, por definição, inapreensível objetivamente, o que impossibilita qualquer possibilidade de a ciência estudá-lo.
terça-feira, 18 de julho de 2017
Lembrete

Em primeiro lugar, você não está sozinho. Para começar, você tem a si mesmo. Isso você sempre terá, mesmo quando não quiser, mesmo quando não perceber. Você é a sua própria força. Não foi à toa que chegou até onde chegou. Não foi por misericórdia dos deuses, ou porque teve sorte. É claro que teve sorte, assim como em muitos outros aspectos teve azar; mas o real motivo de você estar de pé, hoje, é você. Seja mais gentil consigo mesmo; dê a si a compreensão doce e mansa que você daria a um filho.
Além disso, por maior que seja a incompreensão, que sempre parece ter o tamanho e o peso do mundo, tenha a certeza de que mesmo as suas dores mais ocultas — aquelas que você esconde até de si próprio, e que vez ou outra aparecem, descobertas e latentes, nas mais silenciosas e solitárias madrugadas —, mesmo essas dores são partilhadas por muitas outras pessoas. Pessoas que você nem imagina; que podem estar no quarto ao lado, mas também do outro lado do mundo. O carteiro, a sua professora da primeira série, a chefe da sua chefe: todas estas pessoas são pessoas, e dentro delas habita uma profundidade cheia de luz e caos. Talvez você nunca chegará a conhecer nem mesmo um porcento do que elas trazem dentro de si, escondido no sorriso cordial, na selfie postada nas redes sociais; mas só saber que elas também enfrentam lutas diárias, e que muitas destas lutas não são apenas suas, já basta. A solidão parece ser, ao mesmo tempo, a maior verdade e a maior ilusão da condição humana.
Em segundo lugar, eu diria que é preciso sabermos aceitar nossa própria dor. Eu não disse abaixar a cabeça a ela; entregar-nos ao seu poder e desistir de todos os sonhos que foram sepultados pela dura realidade. Eu disse aceitar, pois isso é o que menos fazemos. As pessoas que desistem são justamente as que negam a dor todos os dias, e, de repente, se veem sem forças para continuar. Porque a negação nos consome dos pés à cabeça e joga sobre as nossas costas uma cobrança que é maior do que qualquer um poderia aguentar, e que na maior parte das vezes não faz o menor sentido. E, no fundo, sabemos que não faz sentido, mas continuamos a nos castigar por coisas que estão mais fundas em nós do que a razão consegue alcançar.
Aceitar significa olhar para dor, reconhecê-la como sua, e não ter vergonha nenhuma em admiti-la para si. Não ter esse orgulho ferido que tanto nos machuca. “Essa dor é minha, esta dor sou eu.” E, então, chega o momento decisivo: você percebe que não há motivo para se odiar ou para se culpar. Porque quando a aceitação é genuína, não há espaço para a culpa. Você passa a entender que tudo tem seu tempo, que você também tem seu tempo, e que tentar apressá-lo é a forma mais estúpida de garantir que as feridas não sejam cicatrizadas.
Você não precisa ser nada. Pare com isso. Você só poderá mudar e florescer quando compreender que é o que é, e que pode ser muito mais. Pode ser muito mais, não deve. Nós dois sabemos que você cobra de si coisas impossíveis, coisas que você não cobraria de mais ninguém, pois estaria sendo injusto. Percebendo quão pesadas e implausíveis são as cobranças que coloco sobre mim a todo instante, só agora sou capaz de enxergar que isto estava me sufocando. Já viu, isso? Ser asfixiado por ideias que só fazem sentido dentro de sua própria cabeça? É absurdo, eu sei. Por isso estou pedindo que você também saiba. Pare de ser seu próprio carrasco.
Agora, o que eu peço é que não leia este texto como mero entretenimento. Um pão e circo psicológico para tocar nas suas feridas e esquecer delas amanhã. Porque olhar pra elas dói, e disso eu sei muito bem. É desconfortável. É tão desconfortável que, mesmo quando sabemos que precisamos de ajuda, vamos adiando; adiando e arrumando desculpas, é claro. A gente deixa para amanhã tudo o que é mais difícil e necessário, e permite que o hoje seja cheio de culpa e inércia. Mas vou te contar um segredo: amanhã também será um hoje, e o depois de amanhã também. Não há como escapar do agora, senão anulando a nós próprios no presente.
Eu não estou dizendo que é fácil. Eu estou dizendo que é preciso. É preciso entender que essa procrastinação é uma fuga, e que o medo está fazendo com que deixemos de viver. Você é forte, meu amigo, e disso tenho total certeza. A única pessoa que ainda não percebeu isso é você.
Este texto pertence ao livro Calma Tormenta.
sexta-feira, 16 de junho de 2017
Desconhece a ti mesmo
Dei tantas voltas em torno de mim mesmo que me vejo agora embrenhado no mais tragicômico dos paradoxos. Eu, que sempre fui ótimo com as palavras, que fui sempre o primeiro a ter algo a dizer sobre o quer que seja, e da maneira mais translúcida que eu podia, de repente me descobri incapaz de comunicar o que trago por dentro.Eu não sei. Acho que, em última instância, antecipo que as pessoas não serão capazes de me compreender; não por ter em mim questões de complexidade sobre-humana, mas pelo fato de estar fora de alcance dos outros conhecer e sentir as minhas verdades mais básicas, minhas verdades internas e esmiuçadas que dão liga ao que chamo de real. É como tentar explicar uma equação de segundo grau — que nem eu mesmo entenda muito bem — a alguém que não conhece as operações matemáticas mais simples. As minhas operações só eu conheço, e tentar responder a certos porquês é como tentar explicar axiomas. Por que dois mais dois é igual a quatro?
Durante vinte anos, falei com a gana de ser compreendido. Agora, passei a me calar para não ser incompreendido. Eis o paradoxo. Pois ainda que eu possa, com as palavras, pintar quadros que retratem a minha realidade interna, com as mais fieis cores, a pintura tem sempre, e inevitavelmente, apenas duas dimensões. Falta uma dimensão interior que cada um encontra ou não dentro de si, a depender do quanto meus textos tocam o leitor em seu íntimo; e essa dimensão é necessariamente diferente da minha. Pois a minha dimensão interna é inacessível, e, em minha solitude absoluta, não é raro que eu me perca totalmente em mim; que eu me veja afogado por minhas próprias tormentas.
Talvez eu sinta que esteja me faltando pessoas dispostas a ceder um pouco de sua profundidade para me compreender verdadeiramente, para me dar ouvidos atenciosos. Mas o fato é que não me falta; tenho alguns poucos amigos, este ano ainda mais, que sempre me surpreendem com sua sensibilidade à vida e a mim. O que acontece é que, mesmo com elas, não me sinto completamente confortável para falar sobre as minhas verdades. Por causa de todo o resto, de toda a parcela massiva e gigante de pessoas embrutecidas e desinteressadas, sinto ter perdido a esperança; sinto ser hoje incapaz de acreditar verdadeiramente que alguém se interessaria pelo que tenho a dizer sem uma dose pequena de cinismo, sem um leve fingimento para me agradar.
As pessoas querem só falar, e eu não as culpo: descobri que eu também quero só falar. Quero — como sempre quis — saciar essa sede de mostrar ao mundo as flores que colho em meus jardins internos, para que elas não apodreçam. Mas como se resolve este impasse, em que continuo querendo falar, sem no entanto ter esperança de que conseguirei genuinamente? Porque mesmo com as poucas pessoas que estão dispostas a me ouvir de coração aberto não consigo, eu mesmo, me abrir. Parece falso. Toda tentativa de trazer para superfície o que tenho em meu núcleo é como tentar explicar as cores a uma pessoa cega.
Por vezes, as descrições que dou casualmente a amigos quando me perguntam como estou emocionalmente até se aproximam um pouco da realidade, mas é algo tão simplificado e tão incompleto que soa artificial. Com os outros, eu me sinto inteiro artificial. É como se eu estivesse sempre representando um papel feito de partes de mim, e eu não aguento mais.
Eu não aguento mais.
É como se eu já não soubesse mais me ser. Porque se eu tiro todas as máscaras, não vejo rosto algum. Se tiro de mim o filho obediente, o amigo observador, o falador espirituoso... Se tiro o people-pleaser que gosta de todos e é por todos gostado, o que sobra?
Sobra o meu silêncio. Sobra dor, sobram emoções que me consumiriam vivo, se eu permitisse. Ou sobra gelo, a alternativa a elas, que no entanto não é muito diferente de estar morto.
Se antes eu me desesperava para ser compreendido, percebo agora que era porque no fundo sempre senti a incompreensão iminente. Não apenas lutava contra ela com todas as minhas forças, como a própria luta era de onde eu retirava minha energia vital. E agora? O que tenho? O que faço, tendo perdido as esperanças?
É claro que a escrita me servirá de refúgio, como sempre me serviu; mas não consigo pedir a amigos que leiam meus escritos sem me sentir patético. Porque suplicar por atenção foi o que eu sempre fiz, e continuar fazendo-o mesmo após ter perdido as esperanças faz com que eu precise vestir novamente as máscaras, fingindo que me sinta compreensível. Emocionalmente — isto é, no mais profundo de mim, fora do alcance da razão —, não consigo acreditar que alguém possa realmente ter interesse sincero e autêntico em percorrer as minhas entranhas, pois ninguém há de me entender tão bem como eu. E se nem eu me entendo, que fazer?
Talvez isto mude. É minha única luz no fim do túnel, na verdade: que isso mude, como as tantas outras crises temporárias, porém decisivas da vida. Pois me sinto drenado do que antes me movia; do que antes dava sentido à minha relação com as pessoas. E eu não gostaria de depender das plateias para poder viver. Existe escapatória? Entre viver uma vida artificial, para as pessoas, e uma vida solitária, no próprio silêncio de si?
Este texto pertence ao livro Calma Tormenta.
sábado, 10 de junho de 2017
Sozinhos, coletivamente
A minha história com a solidão é muito estranha; absurda, quase; e, se pararmos para pensar, talvez mágica, até. É que durante a minha vida toda eu a evitei ao máximo. Ter crescido com acesso à internet me possibilitou nunca estar sozinho, e muito da minha desenvoltura social se deu graças a jogos de MMORPG (Massively multiplayer online role-playing game), isto é, mundos virtuais recheados de intensa interação entre jogadores reais. Se por um lado isso fez com que eu aprendesse a me dar muito bem com pessoas, tanto individualmente quanto em bandos — sobretudo para desviar do bullying, muito presente em meu ensino fundamental inteiro —, também criou em mim uma dependência muito grande.Foi então que, no início de meu florescimento intrapessoal, isto é, na época em que iniciei um processo doloroso de autopercepção e amadurecimento, no ano de 2016, notei esta dependência. Caminhando para o Restaurante Universitário, incomodado e até ofendido por nenhum de meus amigos ter aceitado ir jantar comigo, perguntei-me — como um soco em meu próprio estômago — por que diabos a minha própria presença, isolada, me era tão insuficiente. Por que instintivamente eu suplicava por companhia, por alguém para me tirar do tédio monstruoso que era ter apenas a mim mesmo? Esse desconforto abriu meus olhos para muitas outras coisas incrustradas em minha personalidade, para forças inconscientes que motivavam minhas ações de uma maneira constante e talvez até um pouco desesperada. Comecei a entender, por exemplo, por que eu era tão people-pleasing, isto é, por que tinha a necessidade compulsiva de agradar a todos, a todo instante — porque, tendo me pautado a vida toda pela subjetividade alheia, eu precisava que as pessoas me validassem, pois sua aprovação era a única coisa capaz de me tornar real. Por isso digo, no texto Cólera (um de meus textos mais sinceros e viscerais até hoje, diga-se de passagem), que o outro era a minha medida; pois era pelos outros que eu me pautava. Sozinho, não havia outro; sozinho, eu não era nada. Esta minha sensibilidade elevada à percepção do outro deixou de ser um dom e me fez carrasco de mim mesmo.
Se com o tempo me livrei dos meus demônios, apenas por ser agora capaz de visualizá-los? De forma alguma. Mas aprendi a adestrá-los. Vez ou outra eles escapam da jaula e fazem a festa, alimentando minhas inseguranças e catalisando minha ansiedade social; porém, tenho aprendido a questionar sua força e esvaziá-los de poder. Foi assim que fui progressivamente tomando um caminho em direção a mim mesmo, ao ponto de meus amigos estranharem. “Régis, você está bem? Não, não é nada; é só que você está quieto demais.” No começo me incomodava que presumissem que o meu silêncio fosse sinal de tristeza, mas depois passei a achar um tanto fofo, embora levemente obtuso; significa que se preocupam comigo, e que notam quando estou com o grupo, e quando estou comigo mesmo. E se o contraste entre meus comportamentos é tão evidente, é justamente porque a vida toda nunca estive comigo mesmo; sempre estive tagarelando, tentando chamar atenção, citando fatos interessantes aqui e acolá, vivendo até onde me permitiam viver, com seus olhares (des)atentos.
E quanto a estar com o grupo ou estar comigo mesmo, há pouco tempo pude saborear um paradoxo delicioso exatamente nesse sentido. Vocês não acreditariam na frequência com que estou num grupo de pessoas e me sinto profundamente deslocado — tanto por não partilhar do interesse pelo assunto discutido, quanto por ter plena ciência de que as demais pessoas também não se interessariam pela reflexões aleatórias que dançam em minha mente. Nesses momentos, enquanto observo vagamente as pessoas interagirem entre si, sem no entanto prestar muita atenção e ter atenção alguma voltada sobre mim, me sinto profundamente conectado comigo mesmo, da maneira mais confortável e genuína possível. Esse é o paradoxo ao qual me referi: ser justamente no seio das coletividades os momentos em que mais me aproximo de mim mesmo. Contudo, pensando bem, não é paradoxo algum; pelo contrário, faz muito sentido, já que é exatamente nas coletividades que surge sua antítese, o isolamento.
Esse é apenas um dos inúmeros indícios de que não há nada mais ambíguo que a vida em sociedade. Não é à toa que muitas pessoas, a maioria delas, eu diria, vivem solitárias mesmo estando sempre rodeadas. Pois o medo da solidão impõe máscaras, e essas máscaras sociais abrem um abismo entre quem verdadeiramente somos e quem aparentamos ser. É, assim, justamente o medo da solidão que nos condena à maior das solidões: o isolamento dos outros e de si próprio.
Foi só perdendo o medo de me sentir deslocado que pude finalmente aproveitar minha própria companhia e, assim, estar disposto a disfrutar da companhia alheia, nos momentos certos.
Este texto pertence ao livro Calma Tormenta.
sábado, 3 de junho de 2017
Palácio
O palácio que sou eu, e nas paredes do qual estou confinado, embora seja externamente delimitável, visível a olho nu, tem em suas entranhas uma infinitude que cresce â medida que é explorada.Por fora, a divisão entre mim e o mundo possui precisão atômica; as paredes de meu palácio são biologicamente exatas, e entre o que chamo de “eu” e o que chamo de “outro” existe um abismo incontornável.
Por dentro, guardo em mim um universo repleto de supernovas, de estrelas surgindo a partir do caos que me habita. Esta anti-matéria que constitui meu âmago subjetivo não comporta expectadores diretos, de forma que reste a mim duas opções apenas: ou digiro meu próprio caos, que é muito mais sublime e complexo do que às vezes posso suportar, e transmito a outros seres sua versão mastigada, reduzida e deformada, ou deixo-o trancafiado nos cantos mais obscuros de mim, vivendo, assim, na superfície.
Tenho percebido que a vida toda escolhi a segunda alternativa, sempre de maneira passiva e irrefletida. Vivi na superfície para não me excluir da companhia daqueles que me cercam, para obter deles a validação intersubjetiva. Podei minha própria profundidade e complexidade em nome do direito de ser real, em nome do medo de uma existência sozinha e incompreendida.
Já a primeira opção, a de mergulhar em minhas próprias questões e delas expelir algo novo, sublimado, é o que chamo de arte. Mas fazer arte não é tarefa leviana. Porque fazer arte de suas próprias entranhas, arte sincera e visceral, exige coragem. Exige uma coragem que tem me faltado nos últimos meses, em que tenho me alienado de mim mesmo e cedido à insegurança. Deixei que o sentimento de insuficiência, com vestes de preguiça e desinteresse, me tirasse a minha maior liberdade, que é a escrita. Pois cada vez que eu me afundava nos recônditos que me preenchem, eu me via inundado por uma complexidade maior que eu; uma complexidade que nunca exerci publicamente, que sempre deixei enterrada e adormecida, por não me oferecer reconhecimento, por me impossibilitar companhia. A cada tentativa de digerir meu caos, eu me via esmigalhado pela insuficiência, pelo fracasso antecipado que sequer me permitiria tentar o sucesso. Futuros que nem ao menos tiveram a chance de virar presente. E, incapaz de me recompor, de exercer as minhas potencialidades, eu me deixei ser imobilizado pela inércia cada vez mais, tornando-me refém de minha própria covardia. Impotência retroativa que se alimenta do turbilhão que agita as minhas galáxias internas, e que a todo instante me sequestra do agora.
Por isso escrever me exige coragem: pois uma escrita de peito e alma não se constrange diante da expectativa de rejeição, não se censura pelas vaias de uma plateia silenciosa e incerta. Escrever é percorrer o meu íntimo e colocá-lo em palavras para o mundo, sem qualquer medo ou pudor, sem a preocupação asfixiante de ser incompreendido. Pois será justamente o receio de não ser habilidoso o suficiente para organizar e expor com beleza e completude o meu palácio o responsável por fazer com que eu próprio acabe me trancando para fora, junto a quem habita meus jardins externos.
A única maneira de tocar verdadeiramente aqueles que me visitam, que têm em si seus próprios castelos e suas próprias masmorras, é abraçando sem medo as minhas supernovas e trazendo um pouco delas à luz, na escrita. “Canta a tua aldeia e serás universal.” A veracidade desta afirmação é minha única esperança de ter visitas: pois só não estarei sozinho dentro de meu próprio palácio se as pessoas, ao me ouvirem e ao me lerem, puderem, com isso, percorrer o interior de suas próprias paredes. A empatia é muito mais que um mero dever moral: é a única hipótese de não-solidão; de habitar o mundo em conjunto, de descobrir a parte de você que habita no outro. Só por meio da empatia se pode compreender o outro verdadeiramente, sem reduzi-lo à imagem rasa que se faz dele. Um mundo sem empatia é um mundo de pessoas que convivem solitárias, cada uma delas presa à sua própria bolha, cega e incomunicável.
A comunicação profunda e verdadeira é a única forma de romper com a solidão da existência humana. Mas não se adentra outros palácios sem antes conhecer o seu próprio a fundo, sem saber qual é a ponte que liga o seu mundo aos dos outros. E aventurar-se por sua infinitude interior é algo que se pode fazer apenas sozinho, pois só você tem acesso à escuridão estocada dentro de si. Soa deliciosamente paradoxal: para romper com a solidão, é preciso antes fazer dela sua amiga; e, assim, desbravar a si mesmo sem medo do peso das próprias verdades, que, mesmo sem querer, você esconde tão bem de si mesmo. E então, se ainda assim quem estiver em seu jardim não for capaz de vislumbrar o que está dentro das janelas, de compreender o que e quem é você, aí ao menos você tentou — e tem a si mesmo para continuar explorando o próprio mistério que chama de eu.
Este texto pertence ao livro Calma Tormenta.
domingo, 19 de março de 2017
Cogumelo de Adão

Como seria se um personagem pudesse falar com seu autor, descobrindo que sua própria existência é apenas parte de uma história? Com a ajuda de alguns cogumelos duvidosos, Adão começa a conversar com seu criador. É obrigado, então, a questionar as verdades mais fundamentais de sua vida. Se antes não sabia se a voz sobrenatural era real, passa a não saber se ele próprio o é. Naquela relação imaginativa, quem é criador e quem é criatura?
Enquanto passa por um momento conturbado de redescoberta de sua própria identidade, Adão tenta achar seu lugar entre as pessoas — e entre si mesmo. Cada pessoa com quem o rapaz se depara enfrenta também suas próprias lutas internas, suas dores e hipocrisias inerentes à espécie humana. Há o Meia, seu colega de apartamento, que possui uma obsessão religiosa e uma homofobia internalizada; Lorenzo e Julinho, que têm pais que escolhem diariamente ser ausentes na vida dos filhos para dar a eles uma vida financeira confortável; Teresa, que no meio de sua ternura teve uma recaída em sua depressão; e Horácio, que mais parece um animal arisco, após tanto ser hostilizado pelas pessoas ao seu redor.
Adão consegue um emprego e lá descobre a selvageria do mercado profissional. Sente sobre as suas costas o peso da vida adulta e do amadurecimento, que se faz às custas das ilusões confortáveis que sustentavam sua realidade. No entremeio de situações estressantes, descobre suas próprias incoerências internas e com elas aprende, como quem toma um remédio amargo e necessário.
}}Enquanto passa por um momento conturbado de redescoberta de sua própria identidade, Adão tenta achar seu lugar entre as pessoas — e entre si mesmo. Cada pessoa com quem o rapaz se depara enfrenta também suas próprias lutas internas, suas dores e hipocrisias inerentes à espécie humana. Há o Meia, seu colega de apartamento, que possui uma obsessão religiosa e uma homofobia internalizada; Lorenzo e Julinho, que têm pais que escolhem diariamente ser ausentes na vida dos filhos para dar a eles uma vida financeira confortável; Teresa, que no meio de sua ternura teve uma recaída em sua depressão; e Horácio, que mais parece um animal arisco, após tanto ser hostilizado pelas pessoas ao seu redor.
Adão consegue um emprego e lá descobre a selvageria do mercado profissional. Sente sobre as suas costas o peso da vida adulta e do amadurecimento, que se faz às custas das ilusões confortáveis que sustentavam sua realidade. No entremeio de situações estressantes, descobre suas próprias incoerências internas e com elas aprende, como quem toma um remédio amargo e necessário.
A história trata da sociedade enquanto coletividade mecanizada, da hipocrisia humana, das drogas (seus tabus & seus riscos reais), das crises de relacionamento moderno e sobretudo da metaescrita (a escrita sobre a escrita). Ocorre que, fascinado pela magia e pelo poder da ficção, Adão dá início à escrita de seu próprio livro, preparando Laura para a revelação de que ela é uma personagem de um personagem. Em Cogumelo de Adão, as vulnerabilidades de cada um se mostram um poço de sutilezas e complexidades profundas.

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*Meu lucro é nulo. Este é o valor que o Clube de Autores cobra para confeccionar o livro.






